Salvador

SALVADOR: UMA CIDADE VIOLADA
A voracidade dos interesses privados.

Por Bob Fernandes (03/12/2003)

Ainda uma das mais belas cidades do Brasil, Salvador tem uma das mais lindas baías, a de Todos os Santos. Uma cultura, a do Recôncavo, marcada, incluídas as cicatrizes, por três séculos de escravidão. Assim, uma cidade de indivíduos valentes, que não escondem o gosto pela coragem física. Mas, uma cidade, como ente coletivo, paradoxal: enquanto teme, parece ansiar pelo chicote. Se acovarda, permite, calada, que a violem.
Nestes tempos, uns poucos discutem o Plano Diretor da cidade, já enviado, como forma de pressão, à dócil, para dizer o menos, Câmara Municipal. O amontoado de termos técnicos mal consegue esconder a intenção, já verbalizada, antes, pelo secretário de Planejamento, Manoel Lorenzo: Salvador só pode crescer para cima.

Anuncia-se a “flexibilização” de espaços, a “verticalização”. Leia-se: uma Câmara dominada pelo que se denomina carlismo, neo ou pré-pós-carlismo, prepara-se para liberar geral. A longa orla marítima, propositalmente abandonada para que pareça merecedora de uma ampla reforma, verticalizante sempre, é o alvo primordial. A avenida Paralela, de manguezais a cada dia engolidos, é outro.
O futuro, desta forma inevitável, será a copacabanização. O desaparecimento do que resta de área verde, o paredão à beira-mar, o assalto à luz, aos ventos, à visão do oceano por quem por desventura seja fruto do Brasil das Havaianas de R$ 7, da Salvador do desemprego de 27,9% (Dieese).
O Plano Diretor caminha para nada mais ser do que a adequação de todo o espaço público a uma visão empresarial de meia dúzia; em geral, verticalizantes. Tome-se como aperitivo um outro debate em curso.
O Corredor da Vitória, zona tradicional da cidade, mobilizou nos últimos meses setores importantes em torno de um debate relacionado à sua preservação. Este trecho tornou-se um dos principais pontos de concentração de moradias das elites baianas a partir do fim do século XIX.
Em 1998, com um pedido de tombamento federal para um conjunto de 34 imóveis de arquitetura eclética, teve início esse capítulo. Numa primeira bateria de estudos, o Iphan na Bahia reduziu para 18 imóveis os tombáveis, intenção em seguida tombada: 12 seriam os imóveis preservados.

O processo só saiu das gavetas da sede do Iphan em Brasília após uma série de reportagens publicadas no jornal A Tarde. O jornal questionou a construção, em frente à praça do Campo Grande, ponta final do Corredor, de uma torre de mais de 30 andares com apartamentos de luxo. Torre num terreno antes ocupado pela residência do arcebispo primaz e vendida pela arquidiocese em pleno curso do processo de tombamento, que buscava, inclusive, a sua própria preservação.
Com o barulho, deu-se uma reunião do Iphan no Rio e a convocação de um conselheiro. Decisão: de 12, seriam tombados cinco imóveis. Desses cinco, três nem mesmo os flexibilizadores verticalizantes teriam força para pôr abaixo.
Um deles é a tradicional Igreja da Vitória. Outro é o edifício-sede do Museu de Arte da Bahia, e o terceiro é o Palácio da Aclamação (antiga residência oficial do governador, agora um museu). O quarto é a Casa de Itália (espaço de congraçamento da colônia italiana e distante da área mais nobre da Vitória)
O único a seguir tombável, o Palacete Cunha Guedes, não desfruta da maravilhosa vista da Baía de Todos os Santos, como acontece com outros imóveis cujo tombamento tombou.

Nos relatórios, surge uma proposta: a preservação apenas da volumetria e da fachada das outras edificações em uma faixa contínua de 35 metros de profundidade dos lotes, a partir de seu alinhamento com a via de circulação, liberando o resto dos terrenos para ocupação sem índices ou medidas restritivas de qualquer ordem. Leia-se: botar tudo abaixo e deixar as cascas, perdão, as casas, como enfeite do tarugo a ser erguido.
A preservação apenas das cascas, perdão, das casas – experiência já posta em prática em empreendimentos imobiliários na Vitória – constituirá simulacros do que elas realmente foram antes de se tornar cintilantes salões de acesso e de festas.
De certa forma, material valioso para antropólogos, sociólogos, psicólogos e demais ólogos pesquisarem no futuro como uma cidade de 3 milhões de habitantes se rendeu, se deixou violar por meia dúzia de verticalizadores flexibilizantes. Todos, of course, com conexões, abaixo ou acima. Pré, neo, ou pós.
Lorenzo, o mesmo planejador, tem esposado a idéia de botar abaixo o conjunto de balaustradas que, do Porto da Barra ao Rio Vermelho, é testemunha do processo de urbanização do início do século XX. Em seu lugar brotariam marquises que por alguns metros avançariam em direção ao mar como um platô. (Talvez cheguem, enfim, a Miami.)
Plano Diretor, verticalizações, flexibilizações, platôs... Há quem reaja. Cada vez mais escassa a reação. Muitos dos que à boca pequena se dizem contrários ao estupro escancarado da bela Salvador, de público se calam. Bem, ninguém é de ferro. Há sempre a expectativa de uma consultoria...  topo

*Carta Capital, 2003 - Ano X - Número 269

**Fonte: http://cartacapital.terra.com.br/site/index_frame.php acessada em 15/12/2003

VOLTAR