Ainda uma das mais belas cidades
do Brasil, Salvador tem uma das mais lindas baías, a de Todos os Santos.
Uma cultura, a do Recôncavo, marcada, incluídas as cicatrizes, por três
séculos de escravidão. Assim, uma cidade de indivíduos valentes, que não
escondem o gosto pela coragem física. Mas, uma cidade, como ente coletivo,
paradoxal: enquanto teme, parece ansiar pelo chicote. Se acovarda,
permite, calada, que a violem.
Nestes tempos, uns poucos discutem o Plano Diretor da cidade, já enviado,
como forma de pressão, à dócil, para dizer o menos, Câmara Municipal. O
amontoado de termos técnicos mal consegue esconder a intenção, já
verbalizada, antes, pelo secretário de Planejamento, Manoel Lorenzo:
Salvador só pode crescer para cima.
Anuncia-se a “flexibilização” de espaços, a “verticalização”. Leia-se: uma
Câmara dominada pelo que se denomina carlismo, neo ou pré-pós-carlismo,
prepara-se para liberar geral. A longa orla marítima, propositalmente
abandonada para que pareça merecedora de uma ampla reforma, verticalizante
sempre, é o alvo primordial. A avenida Paralela, de manguezais a cada dia
engolidos, é outro.
O futuro, desta forma inevitável, será a copacabanização. O
desaparecimento do que resta de área verde, o paredão à beira-mar, o
assalto à luz, aos ventos, à visão do oceano por quem por desventura seja
fruto do Brasil das Havaianas de R$ 7, da Salvador do desemprego de 27,9%
(Dieese).
O Plano Diretor caminha para nada mais ser do que a adequação de todo o
espaço público a uma visão empresarial de meia dúzia; em geral,
verticalizantes. Tome-se como aperitivo um outro debate em curso.
O Corredor da Vitória, zona tradicional da cidade, mobilizou nos últimos
meses setores importantes em torno de um debate relacionado à sua
preservação. Este trecho tornou-se um dos principais pontos de
concentração de moradias das elites baianas a partir do fim do século XIX.
Em 1998, com um pedido de tombamento federal para um conjunto de 34
imóveis de arquitetura eclética, teve início esse capítulo. Numa primeira
bateria de estudos, o Iphan na Bahia reduziu para 18 imóveis os tombáveis,
intenção em seguida tombada: 12 seriam os imóveis preservados.
O processo só saiu das gavetas da sede do Iphan em Brasília após uma série
de reportagens publicadas no jornal A Tarde. O jornal questionou a
construção, em frente à praça do Campo Grande, ponta final do Corredor, de
uma torre de mais de 30 andares com apartamentos de luxo. Torre num
terreno antes ocupado pela residência do arcebispo primaz e vendida pela
arquidiocese em pleno curso do processo de tombamento, que buscava,
inclusive, a sua própria preservação.
Com o barulho, deu-se uma reunião do Iphan no Rio e a convocação de um
conselheiro. Decisão: de 12, seriam tombados cinco imóveis. Desses cinco,
três nem mesmo os flexibilizadores verticalizantes teriam força para pôr
abaixo.
Um deles é a tradicional Igreja da Vitória. Outro é o edifício-sede do
Museu de Arte da Bahia, e o terceiro é o Palácio da Aclamação (antiga
residência oficial do governador, agora um museu). O quarto é a Casa de
Itália (espaço de congraçamento da colônia italiana e distante da área
mais nobre da Vitória)
O único a seguir tombável, o Palacete Cunha Guedes, não desfruta da
maravilhosa vista da Baía de Todos os Santos, como acontece com outros
imóveis cujo tombamento tombou.
Nos relatórios, surge uma proposta: a preservação apenas da volumetria e
da fachada das outras edificações em uma faixa contínua de 35 metros de
profundidade dos lotes, a partir de seu alinhamento com a via de
circulação, liberando o resto dos terrenos para ocupação sem índices ou
medidas restritivas de qualquer ordem. Leia-se: botar tudo abaixo e deixar
as cascas, perdão, as casas, como enfeite do tarugo a ser erguido.
A preservação apenas das cascas, perdão, das casas – experiência já posta
em prática em empreendimentos imobiliários na Vitória – constituirá
simulacros do que elas realmente foram antes de se tornar cintilantes
salões de acesso e de festas.
De certa forma, material valioso para antropólogos, sociólogos, psicólogos
e demais ólogos pesquisarem no futuro como uma cidade de 3 milhões de
habitantes se rendeu, se deixou violar por meia dúzia de verticalizadores
flexibilizantes. Todos, of course, com conexões, abaixo ou acima. Pré,
neo, ou pós.
Lorenzo, o mesmo planejador, tem esposado a idéia de botar abaixo o
conjunto de balaustradas que, do Porto da Barra ao Rio Vermelho, é
testemunha do processo de urbanização do início do século XX. Em seu lugar
brotariam marquises que por alguns metros avançariam em direção ao mar
como um platô. (Talvez cheguem, enfim, a Miami.)
Plano Diretor, verticalizações, flexibilizações, platôs... Há quem reaja.
Cada vez mais escassa a reação. Muitos dos que à boca pequena se dizem
contrários ao estupro escancarado da bela Salvador, de público se calam.
Bem, ninguém é de ferro. Há sempre a expectativa de uma consultoria...
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*Carta Capital,
2003 - Ano X - Número 269
**Fonte:
http://cartacapital.terra.com.br/site/index_frame.php
acessada em 15/12/2003
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