*A
Ford na Bahia
um exemplo de neocolonização e subserviência
"Povo que não tem virtudes
termina por ser escravo"
Eu sou professor do Curso de Engenharia Mecânica da
Universidade Federal da Bahia.
Contando com a vinda da Ford começamos logo a fazer projetos de
reestruturação do curso com foco na área automotiva, não era só a Ford,
vinham mais 32 sistemistas. Hoje o desencanto é geral, já com a fabrica
produzindo, verifica-se uma espetacular obra de predação ao estado.
Mesmo com a procura insistente por parte de alguns professores
deslumbrados, até hoje não existe qualquer relação, ou mesmo proposta,
da Ford ou das sistemistas, com Escola Politécnica, que é a escola que
reúne os cursos de engenharia na Universidade Federal da Bahia.
A medida que vamos conhecendo melhor o empreendimento e as
relações da montadora com a comunidade vamos percebendo, até com
surpresa, a postura absolutamente avarenta, senhorial e assimétrica.
É só "venha a nós o vosso reino" ou, seguindo a doutrina de
Kennedy, "Não perguntes jamais o que a Ford pode fazer pela Bahia, mas
sim o que a Bahia pode fazer pela Ford"
Todo o universo, empresa mais fornecedoras, não absorveu mais que
20 engenheiros formados aqui na Bahia, a maioria vem de fora. Os
salários são baixos, estão na faixa de R$ 1.500,00 a R$ 2.500,00 com um
nível mínimo de assistência.
A fábrica está localizada no complexo industrial de Camaçarí que
abriga o Pólo Petroquímico, distante cerca de 55 km de Salvador. Pois a
Ford não oferece nenhum tipo de transporte aos seus funcionários, ao
contrário das outras empresas petroquímicas do complexo que transportam
os seus trabalhadores, conforme é, aliás, tradição nas relações de
trabalho em industrias que tem alguma distância do centro urbano. A
Ford, o que fez em relação a esta prática? Foi exigir que a prefeitura
de Camaçari, cidade que dista 7km. do distrito industrial do Pólo,
construísse uma ciclovia, de Camaçari até a fábrica.
Os empregos foram criados, em grande parte, no exterior. Por
exemplo, a sistemista responsável pela pintura, uma empresa americana,
trouxe todos os funcionários de nível, do México e dos Estados Unidos e
pelo jeito que este pessoal está comprando residências, e trazendo a
família, vieram para ficar, pelo menos, por algum tempo.
Para os baianos restaram as vagas de emprego primário muito mal
remuneradas, média de 500,00 reais quando as mesmas funções, em São
Paulo, valem de 1.200,00 a 1500,00, no pólo petroquímico a média de
funções equivalentes é de 760, 00 reais (e sem transporte, de Salvador,
ou mesmo Camaçari, até a fábrica).
As facilidades criadas para estimular a instalação da montadora
mostram uma singular lição de subserviência e levaram a algumas
concessões que são absolutamente escandalosas. A Ford exigiu, e obteve
(aliás ganhou tudo o que quis, deve estar arrependida de não haver
pedido mais) um contrato de financiamento de capital de giro no qual o
Estado Tupiniquim, vejam só!
Compromete-se a financiar um montante equivalente a 12% do
faturamento bruto da empresa, oriundo das operações com produtos
nacionais ou IMPORTADOS comercializados na Bahia. (é por isto que o
pátio da empresa, estrategicamente escondido aos acessos normais da
fábrica, está repleto de automóveis Ford Focus e camionetes Ranger
vindos da Argentina, antes desembarcados em São Paulo que alem de ser o
centro consumidor fica muito mais perto da procedência)
Aqui vai um comentário; Apesar desta operação estar travestida
de financiamento de capital de giro, na prática ela representa um
incentivo fiscal, uma vez que o financiamento corresponderá ao total do
ICMS devido, com prazo para pagamento de 22 anos, sendo que sobre este
valor não incidirão juros e correção monetária e ainda poderá ser
liquidado antecipadamente com descontos nunca concedidos em nosso
sistema financeiro.
É um exemplo de renuncia fiscal jamais visto. Pode parecer, mas
os números não estão errados, foram obtidos através de um relatório
interno do Tribunal de Contas do Estado (TCE). É uma facilidade tão
imoral que não prevê qualquer correção, mesmo com o pagamento em 22
anos, após o qual se fará no valor histórico e com a possibilidade de
desconto que pode alcançar a totalidade do débito.
Que nome pode se dar a isto que não seja "doação". O que não
está no contrato mas deve constar no acordo é o compromisso das
espetaculares obras de infra estrutura, exigidas, ao capricho, pela
Ford.
Para construir o porto exclusivo da Ford, o estado da Bahia está
pagando R$ 31 milhões á construtora Norberto Odebrecht. terá uma área
de estacionamento com capacidade de 6000 veículos mas nem aí serão
criados empregos porque a empresa que vai administrar o porto e operar
os equipamentos é norte-americana, a Crowley, emprego nacional só para a
mulher do cafezinho e para o vigilante.
A malha viária, no entorno da fábrica, foi reconstruída segundo
a exigência, de tal forma que as estradas que dela fazem parte, são hoje
as mais perfeitas do país. A terraplenagem da fábrica, os acessos e o
resto da infraestrutura também foram doados pelo Estado.
Para atender a todas as imposições da montadora, incluindo o
empréstimo, outra doação! conseguir financiar o compromisso, e honrar o
acordo de vassalagem, o Governo da Bahia desviou o seu orçamento
diminuindo flagrantemente o investimento social.
A Educação e a Saúde encontram-se em um verdadeiro caos na Bahia
(é proibido reprovar nas escolas estaduais, mesmo os alunos que não
comparecem as provas passam de ano. O estado não pode arcar com o custo
de reprovação).
Mas agora vem o pior, pasmem! A região metropolitana de
Salvador que já era recordista nacional de desemprego, teve, segundo
relatório do DIEESE e também do IBGE, o índice de desemprego aumentado
no ano passado, enquanto no mesmo período o desemprego na região
metropolitana de Porto Alegre diminuiu!
E vejam que ironia! Através do mesmo relatório, declara, que uma
das causas deste rebaixamento, foi o crescimento da industria de
substituição de produtos importados.
Se o Governo tivesse aplicado um terço do que deu a Ford para o
desenvolvimento de uma industria nacional, a Gurgel, por ex., eu não
tenho duvida que em cinco ou seis anos o Brasil estaria exportando
automóveis desenvolvidos com tecnologia endógena.
É quixotesco? Quem foi que desenvolveu a tecnologia do motor
1000 ? Hoje a maior revolução na industria automotiva nacional.
Há trinta e seis anos, a Coréia era um Paraguai em relação ao
Brasil (que este exemplo sirva de estímulo ao nosso simpático
vizinho).Quem não tem idéia do que é a Coréia hoje poderá conhece-la
através das transmissões da Copa do Mundo. Tem Ford na Coréia? Mas tem
fábrica Coreana nos Estados Unidos.
Ao escrever este artigo duas frases me vem a lembrança que
retratam o emblema desta contradição, uma eu encontrei em entrevista do
Ministro da Educação, Paulo Renato Souza, à revista Exame quando ele
declara.... não ser mais necessário realizar grandes investimentos em
desenvolvimento de tecnologia pois esta já esta pronta lá fora, basta
traze-la para o Brasil......, a outra eu busquei na letra do hino do Rio
Grande, prega o seguinte: "Povo que não tem virtudes, termina por ser
escravo".
*Iberê Luiz Nodari é professor do Departamento
de Engenharia Mecânica, Escola Politécnica Universidade Federal da
Bahia. Email: nodari@ufba.br
Fonte:
http://www2.uol.com.br/aregiao/art/fordba.htm
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